Dirigindo no Escuro

Hollywood Ending (2002 – EUA)

Novamente Woody Allen vem com um grande argumento, sua capacidade de criar histórias pequenas e cheias de diferencial é invejável. Um cineasta com cegueira psicossomática, tendo de esconder o problema para não ver sua carreira ir pelos ares. E se pensarmos que Allen sempre tem pequenos ensinamentos de vida para expor em seus filmes, já temos aqui a garantia da necessidade em conferir mais uma de suas obras.

O porém é que o filme para na ideia e nessas falas isoladas e cheias de ensinamentos do cineasta já que as gags não funcionam, as piadas parecem pouco desenvolvidas, a verdade é que o humor falha, e temos apenas mais um de seus trabalhos diluídos, com exageros de seu próprio toque pessoal (chega a ser irritante a incapacidade do cineasta “cego” não olhar para o lado certo quando fala com alguém), uma tentativa que não deu certo, mesmo que assim mesmo ele cutuque a critica Americana dizendo que os franceses é que o entendem, ou a fala genial dizendo que  todo marido devia ficar um pouco cego para perceber a esposa que têm (mesmo raro, mas há os casos inversos também).

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Poucas e Boas

Sweet and Lowdown (1999 – EUA)

Um falso documentário sobre a biografia de um grande violonista (talvez o segundo melhor da história), vivendo os anos do jazz na dourada época dos anos trinta. É assim que Woody Allen pauta mais uma de suas comédias, um sujeito excêntrico que não se permite assumir o romantismo que há dentro dele. Grosso, estúpido, e com um quê de bon-vivant, o genial músico (interpretado por Sean Penn, ora caricato, ora divertido) flerta com as garotas levando-as para dar tiros em ratos no lixão ou olhar os trens cruzando os trilhos de uma estação qualquer. A falsa biografia é a Estrada encontrada por Allen para contar fatos curiosos, levante hipóteses malucas, brincar com o personagem a seu bel-prazer, em alguns momentos obtendo resultados divertidos e em outros não tão inspirados.

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J Edgar

J Edgar (2011 – EUA)

Clint Eastwood é um cineasta sóbrio e quadradão, sua cinematografia foi formada com coerência numa série de personagens e histórias que apontam um EUA de pequenos ou grandes heróis (sejam eles justiceiros ou não). E nesse quadro, traçar a biografia de J. Edgar Hoover, o mentor e homem forte por trás do FBI por 48 anos. Se há algo realmente de muito bom é a demonstração de envelhecimento de um personagem, quando jovem um idealista, visionário, que praticamente inventou os métodos de investigação, sempre focando no científico. Quando mais velho, tornando-se um perseguidor de congressistas e de “comunistas” negros como Martin Luther King e sua turma.

J Edgar (Leonardo DiCaprio) decide narrar sua biografia, mote para o filme trazer os flashback’s dessa vida que se mistura a alguns dos criminosos mais famosos dos EUA. A narrativa é equilibrada, os motimentos de câmera parecem desvendar cada cena. Ainda assim, mesmo com o discreto apelo homossexual, o filme peca por um excessivo tom sereno e um exagero melodramático em sua parte final. A coisa é excessivamente mecanica, o tom muito formal e solene, e falta emoção. Qual a necessidade de Naomi Watts num papel insignificante e da maquiagem carregada para envelhecer os atores quando poderiam ter sido utilizados outros de idade adequada.

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Poderosa Afrodite

Mighty Aphrodite (1995 – EUA)

Vamos combinar Woody Allen que essa idéia não deu certo. Era fraca e muito mal resolvida, as piadas não funcionam bem e algumas cenas chegam a beirar o constrangedor (no restaurante e na casa da garota de programa). Ainda assim, sem exceção os filmes são obrigatórios, primeiramente por esse personagem de si mesmo que ele interpreta (ou outros atores assumem esse alter-ego) e que não é genial, mas a repetição dos trejeitos, comportamentos, e manias o torna genial. Aqui ele é um locutor esportivo, adotando um garoto com sua esposa. Passados alguns anos lhe desperta a curiosidade em descobrir as origens do seu filho, quem seria a mãe?

A tragédia grega está tão óbvia que os atores-fantasmas que encenam e dão palpite na vida dele são figura desnecessária, afinal a situação é óbvia por si, apenas o diferencial está no mundo onde Allen tece as relações humanas de seus personagens. Mas, dessa vez, o faz de forma pouco inspirada, a começar pelo diálogo inicial na mesa de um restaurante, cópia a si próprio em Maridos e Esposas (realizado apenas 3 anos antes), seguindo pelo tema sexo despudorado que mais parece um óvni perdido entre a covardia e a verborragia, fora a atuação apagada e nula de Helena Bonham Carter.

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Tiros na Broadway

Bullets Over Broadway (1994 – EUA)

Dramaturgos sempre querem manter sua liberdade intelectual, verdadeiros gênios incompreendidos por publico e critica, David Shayne (John Cusack) não é diferente, na Broadway dos anos 20 ele busca seu espaço, e fica louco só de pensar que alguém possa mudar uma virgula do seu “brilhante” texto. Em um de seus momentos mais geniais, Woody Allen une o inimaginável, um chefe da máfia financia o espetáculo desde que sua namorada seja incluída no elenco. Seu capanga Cheech (Chazz Palminteri) acompanha como guarda-costas os ensaios. A vida de Shayne muda completamente, o conjunto de atores escolhidos e as manipulações de egos são conduzidas meticulosamente pelo roteiro, a cada novo dia Shayne vai perdendo o controle da peça, de sua vida, do próprio texto. E nesse ponto ganha espaço a figura apaixonante de Cheech que com sua sensibilidade das ruas e seu charme durão se intromete no texto de maneira fundamental. A peça se torna um furacão, Shayne uma marionete, e Allen, se diverte, com crítica sagaz ao show business num tom de humor refinado.

 

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Precisamos Falar sobre o Kevin

We Need to Talk About Kevin (2011 – EUA)

Qual o grau de relevancia do drama de vida da mãe de um desses estudantes-serial-killers-de escolas? Tendo em vista o filme dirigido por Lynne Ramsay, nenhum. Num paralelo entre vida atual e a reconstituição dos fatos (desde o casamento e nascimento do filho, até a situação vigente), tudo o que Ramsay faz é justificar um comportamento demoníaco do garoto, desde criança. Algo totalmente fora de propósito, impossível, a maldade desde bebe não condiz com qualquer realidade.

A mãe (Tilda Swinton) tenta reconstruir sua vida, abafada pelo escandalo, a vergonha, e o repúdio da sociedade. Ao seu lado, personagens fétidos, como se a reconstrução fosse impossível desde as relações sociais (quando os problemas deveriam ser muito mais intrínsecos, do que a dificil relação com novos colegas de trabalho). Impressionante como Ezra Muller consegue fugir do tom do filme, e apresentar uma atuação até contida, dentro de todo o demoníaco personagem apresentado.

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Quando Tudo Começa

Ça Commence Aujord`hui (1999 – FRA)

O diretor da escola (voltada unicamnete a alunos do maternal) pergunta aos pais porque o filho anda faltando muito. Os dois, claramente desmotivados, dizem que não ligam mais o desperdador. Quanto mais puderem esticar o tempo na cama, mais fácil lidar com o restante do dia, o desemprego que os assola há meses. Coincidencia assistir ao filme exatamente agora, em meio à crise que assola a Europa, já que todo o dia-dia ligado ao dedicado diretor (devidamente humano, com problemas familiares como os nossos) evoca a situações limite que denunciam, num primeiro momento, situações financeiras catastróficas (casas há mais de 6 meses sem eletricidade, no inverno europeu).

O cineasta Bertrand Tavernier praticamente não interfere nessa rotina escolar, seu filme é convencional, nunca melodramático. Situações extremas, até mesmo desesperadoras, são apresentadas como um corte frio, tal distanciamento nos faz pensar no quão real e o quanto se repetem em cada escola, de cada bairro, de todos os países desse mundo. Educar, educar, e ainda enfrentar o descaso governamental, a negligencia da assitencia social, são tantos obstáculos, que enfrentar cada dia, vendo crianças agredidas deliberadamente por familiares, ou sem comer por dias, tornam a simples tarefa de trabalhar, todos os dias, num esforço descomunal.

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